Quinta-feira, Fevereiro 11, 2010

O vértice de tudo...

Estou no vértice de tudo. O próximo passo (seja para que direcção for) será decisivo. É claro que sei que todos os passos são decisivos. Que até a mais ínfima das escolhas leva a destinos díspares. Mas. Mesmo assim. Este é um momento importante. Quase irrepetível. Um momento mais importante do que outros (talvez) porque é auto-consciente. Sente a sua própria importância no trajecto de escolhas que é a vida. Olha para si próprio com reverência. E por isso engrandece-se. Como a nossa própria sombra ao pôr-do-Sol. Como uma sombra tão grande que se espraia por todos os instantes ínfimos dos dias.

Neste momento crucial. De ante-câmara da vida. Sinto-me quase omnipotente. Eu posso ser. Tanta coisa. Ser eu em tantos locais distintos. Escrever a minha história de tantas maneiras possíveis. Eu sei que é isto a vida. A página em branco sublime onde nos podemos escrever (ou pintar ou rabiscar) da forma que quisermos. Eu sei. Eu passo muito tempo a pensar nas escolhas. Nos prós e contras. Nos sins e nãos. Mesmo das coisas mais ridículas. E é por isso que sei que estou no vértice. É por isso que sinto o poder da escolha na palma das mãos. Sinto-o como uma chama que me ardesse dos dedos sem mos consumir.

O que me inquieta. No entanto. É a escuridão em que tenho de dar o próximo passo. A incapacidade de avaliar. De julgar. De pesar. De imaginar até. Tudo o que virá. E por isso sinto-me cego. Ou vendado como as senhoras dos anúncios para escolher o melhor produto alimentar. Mas. Neste caso. Também sem gosto e olfacto.

Estou no vértice de tudo. Se pudesse colocar um marcador de livro neste dia. Nesta semana. Colocá-lo-ia. Como uma salvaguarda. Se tudo corresse mal. Se me escrevesse torto por linhas aparentemente direitas. Se me rabiscasse vezes sem conta e as páginas ficassem um interminável esboço do que poderiam vir a ser. Nesse caso poderia voltar aqui e começar uma nova história...

Mas sim. Eu sei. A vida não é nada disto. Ou talvez até seja, na maioria das pequenas decisões que se nos atravessam à frente. Mas hoje. Neste preciso instante. No vértice de tudo. À sombra omnipresente de um momento adamastor. Parece que estou prestes a escrever a caneta numa folha em branco. Só com uma borracha verde por perto...

Terça-feira, Fevereiro 09, 2010

Frio...

Outra vez. Não sei porquê. O frio. A sensação de que nada vale (realmente) a pena. Que me importa se a frase é feita ou por fazer. A verdade (agora) é o frio. E perante ele tudo parece cessar.

...
...
...

Brrr.

Domingo, Janeiro 17, 2010

Vazio

Cheguei ao fim do dia triste. Sem saber imediatamente porquê. Só depois me recordei que hoje foi um dia sem te ver. Foi um dia sem ti.

Toda esta tristeza seca e desamparada tem origem na saudade. Num desejo de te encontrar nalguma esquina do quarto. Das escadas. Da cozinha. Por isso este vaguear errático pela casa. Esta sensação de que o dia não chegou ao fim. De que há ainda algo de muito bom por acontecer.

Infelizmente hoje foi um dia sem ti. E não há nada de bom por acontecer.


[13/07/2006]

Quinta-feira, Janeiro 14, 2010

(Des)necessidades...

Não sei dos cadernos. Aliás. Não sei sequer se ainda preciso de saber dos cadernos. Na verdade talvez já nem saiba escrever. Nem falo de o fazer bem ou mal. Falo apenas do próprio acto de escrever. Ultimamente nada me chama para uma folha de papel vazia. Branca e vazia. Nada me chama para um écrã vazio. Vazio e branco. Como o tempo. O tempo que passa e deixa tudo na mesma. Ou melhor. Que passa e não deixa tudo na mesma. Mas há alguma diferença entre estas duas frases? Talvez bastasse dizer: O tempo que passa. Ponto final. Tudo o resto é redundante.

Terça-feira, Setembro 01, 2009

Alta definição...

Não sei. Estou cansado. Passa tudo demasiado depressa. Ou sou eu que não consigo acompanhar o ritmo de tudo. Que interessa, afinal? Vai tudo dar ao mesmo. Neste caso, vai tudo dar a esta sensação de vertigem dos dias. A este mundo desfocado que me entra pelos olhos cansados. A este pano de fundo de náusea, que me serve de cenário a todos os instantes.

Nem vontade disto, nem de outra coisa. Nem desejo, nem repulsa. Nem esperanças, nem desilusões. Tudo está bem. Tudo está bem, claro. Se alguém te encontrar na rua, sorri. Se te perguntarem "como vais?", responde que está tudo bem. Nem penses em dizer "vou andando". Não vale a pena incertezas. Na realidade, quem é que quer saber? Quem é que, na verdade, se importa? Sorri. Não te esqueças. É fácil. Basta repuxar um pouco os cantos dos lábios e estás safo. Sim, está tudo bem. E porque é que não havia de estar? Não, mais vale dizeres que está tudo bem. Assim escusas de tentar explicar. Escusas de tentar pôr por palavras as tuas ideias orfãs. Desconexas. A tua visão turva dos dias. É claro que está tudo bem.

Mas não exageres. Isso passa. Tu sabes que sim. Um dia destes dormes melhor e acordas dentro de ti. E vais andar ao mesmo ritmo do que o resto do mundo. Vais ouvir os mesmos tambores do que os teus irmãos. E ver tudo com a nitidez própria da era HD. Que diabo, até destoas. Como uma televisão pequenina, a preto e branco, perdida num mundo de iphones e playstations.

É isso. Um dia destes acordas e em vez de olhos tens uns plasmas lindos! E a cor toda do mundo vai entrar-te pelos pixéis adentro! Em formato RGB, claro. Nessa altura já nada vai passar depressa demais. Se começar a acelerar, fazes uma pausa e colocas em câmara lenta. Bem podes dizer adeus às vertigens e ao cansaço.

Até lá. Sorri. Está tudo bem.

Terça-feira, Julho 14, 2009

Solavanco

Agarrei na caneta como numa lança. Com vontade de ferir. De me ferir. Quis rasgar o papel com palavras fortes e indomáveis. Selvagens. Sem trela. Poderosas e livres. Mas. Entretanto. Algo se desligou por dentro de mim. Como um interruptor estragado. Ou uma lâmpada velha que se funde.

E agora. Nem a caneta é uma lança nem eu um guerreiro louco. Fiquei agarrado à lembrança vaga de um ímpeto criativo. Que se esfumou. Que se esvaiu. Pela ponta desta caneta.



[Um dia igual a muitos]

Sexta-feira, Julho 10, 2009

Areias do tempo...

Será que ainda te lembras de ontem? Dos medos que se encontravam à espreita em cada esquina? Da aventura que era cada passo do caminho? Será que ainda te lembras de como chegámos até aqui? Eu não sei se consigo lembrar-me de tudo. Mas há coisas de que não me esqueci. Subsistem em mim, ainda agora, os restos de todas as sensações que tive até chegar a este dia. São impressões. Leves nuances. Gradações. Que, unidas, perfazem este eu, que agora escreve estas linhas.

Será que tudo não passa de um sonho? Há imagens que me atravessam o cérebro de forma desconexa. Pequenos fragmentos que não consigo conciliar. Aos quais não consigo dar sentido. Não sei de onde vêm. Talvez tu te recordes! Diz-me, são verdade? Ou invenções de uma noite mais negra que as outras?

Quem me dera saber distinguir sempre o certo do errado, até mesmo nos sonhos. Até mesmo nas memórias. Preciso que me lembres como se faz. Sei que havia um truque - Tinha de haver! Havia? - Um truque para saber sempre o que fazer. Sei que havia. Senão como é que tu conseguias? Lembro-me de como, para ti, era tudo tão claro. Para mim sempre foi como ver um espectáculo de magia. Olhava-te maravilhado. Com a admiração incrédula de um miúdo no circo.

Agora, não sei nada. Esqueci-me de muita coisa. De quase tudo. Do pouco que sei lembrar, muito é sonho e confusão. Preciso que me digas se te lembras. Se ainda te lembras de ontem.

E que mo contes agora. Antes que tudo termine. Antes que tudo seja passado.



[10/03/2009. Confuso, mas já tinha saudades...]

Quinta-feira, Março 26, 2009

A queda

Não sei se acredito no que me voltou a acontecer. Outra vez a desilusão à minha porta. Tomei medidas para que não se repetisse. De há tempos para cá almofadei a minha vida. Limei-lhe as arestas todas. Tentei balizar as minhas expectativas. Passei a ter cuidado com os sonhos. A evitar qualquer emoção feliz por antecipação. É verdade. Passei a percorrer a vida pé ante pé. Com pezinhos de lã. Como um bebé a fazer tem-tem. Com toda a cautela para não dar um passo a mais. Um passo maior.

Não valeu de grande coisa. À primeira distracção, caí. Caiu tudo. Uma vez mais.

Já não sei contar as nódoas negras e os arranhões. Nem quero, para falar a verdade. Estou demasiado cansado. Desta vez vou ficar uns tempos aqui em baixo. A tentar perceber os porquês. A tentar perceber os para quês.

Um dia destes talvez acorde com vontade. Com confiança. Com coragem. Para tentar uma vez mais.

Afinal, é sempre assim que tudo recomeça...

Quinta-feira, Março 19, 2009

Não tenho história

Não tenho história - disse ele. Ela sorriu. O resto da frase ainda a rodopiar na sua mente. Abriu os olhos. À sua frente o azul do mar. Depois do fim da falésia e antes da linha do horizonte o transformar num outro azul. Abriu os braços. Minto. Esticou os braços, até o seu corpo ser tão largo como comprido. Até desenhar uma cruz na falésia. Duas cruzes. A silhueta e a sombra a darem mais dimensões ao silêncio no fim das palavras - Não tenho história.

Em redor o dia acontecia, como um pano à espera de cair sobre o mundo. O vento soprava de todos os lados. Parecia querer entrar por todos os poros da pele. Entranhar-se nela. Fundir-se nessa carne feita cruz à beira do abismo. Ela permanecia quieta. O sorriso ainda no rosto, como um farol por entre o nevoeiro. E pensava.

O vento dava-lhe nos braços a impressão de voar por sobre o azul do mar, em direcção ao pôr-do-sol que se adivinhava. Não tenho história - disse ele. Ela sorriu. E depois sussurrou-lhe baixinho:

Não faz mal. Eu conto-te a minha.

Segunda-feira, Março 09, 2009

Não são borboletas

Outra vez a impressão má no estômago. Não borboletas. Outra coisa. Não sei explicar. Uma angústia qualquer. As angústias não são todas iguais. Aliás, as angústias não têm nada de comum entre si, para lá do nome. E é uma delas que, neste momento, sinto a fervilhar por dentro.

De uma certa maneira, é uma naúsea. Semelhante à do outro, a Naúsea de todas as coisas existentes. Mas diferente, ainda. Uma naúsea menos existencialista. Apenas uma vontade inexplicável de vomitar algo, que não o que está no estômago. Uma naúsea concreta de vomitar um dentro abstracto.

Talvez seja uma ânsia. Mas inoperante, ineficaz, incapaz de produzir acção. Uma ânsia entorpecida. Adormecida. Uma inquietação subtil e sub-reptícia. Um vulcão qualquer a explodir em nuvens de silêncio e lavas de desilusão.

Talvez seja isto. Não sei bem. Sei que não são borboletas.

Quinta-feira, Março 05, 2009

As palavras (I)

As palavras fogem de mim como o Diabo, dizem, da cruz. As palavras aparecem-me à frente vestidas de oiro e marfim, esmeraldas e rubis. Para desaparecerem antes de as conseguir perceber. Antes de as conseguir fotografar e de as poder chamar minhas.

As palavras, que já não sei se são doces, se amargas. As palavras onde já não me sei povoar. As palavras ocas como as paredes falsas dos escritórios. As palavras cruéis que me fazem vagabundo dos dias, caminhante num deserto de silêncio. As palavras sozinhas. Solteiras. Sensaboronas. Suspensas num cinzento assustado.

As palavras para onde quero correr de braços abertos. Prados de palavras de todas as cores, cheiros e formas. As palavras a serem a sombra de uma árvore que desejo com a força visceral de ser um Homem. As palavras que são rios a correr na distância do ouvido, pássaros a inundar os campos de felicidade.

As palavras. Sem saber que as palavras não são mais do que letras e sons esquecidos na poeira de um caixão fechado.


[Num dia qualquer do passado...]

Quarta-feira, Março 04, 2009

Ausência

Sem ti, a solidão fria dos montes aperta-me o coração contra o peito. Como se, a qualquer momento, se fosse esmagar, ou antes, rebentar como um balão vermelho e palpitante. Sem ti custa tudo. Até respirar se me tornou uma tarefa hercúlea. De modo que, agora, não se pode dizer que respiro, mas antes que arquejo pelos dias, como quem se arrasta, nú, sobre um caminho de silvas e tojos. Não percebo a força imensa que o amor carrega, escondida por baixo da capa de liricismo. A força que acende o mundo todo, dando as mais belas cores aos montes, aos rios, às pedras, aos vales, às árvores, ao mar e ao céu. A mesma força que pode, quando o amor acaba - ou se perde, ou se esvai, ou se adia, ou se apaga - pintar, de um só fôlego, todo o Universo de um negro mais fundo que a noite dos tempos, antes de algo ter existido.

O amor é a força mais poderosa que existe. E é tudo o que direi, pois em meu redor, o frio da noite espalhou-se já pelos montes e, cá dentro, o coração bate, pequenino, de encontro à muralha pétrea das costelas.



[2007]

Segunda-feira, Março 02, 2009

Lembranças...

Às vezes apetece-me olhar para as coisas e sorrir. Sorrir muito com a cara toda. Como quando era criança e o mundo era feito de desenhos animados.
Apetece-me sorrir como se saltitasse pelas margens do Mississipi com o Tom e o Huck. Sorrir como se ouvisse as histórias do Panda Tao-Tao contadas pela mamã Panda. Sorrir como se sentisse as folhas caírem sobre mim, enquanto andava de carroça com a Ana dos Cabelos Ruivos. Sorrir como se entrasse no Jardim Secreto. Sorrir como se tivesse um cavalinho azul e uma amiga com cabelo cor-de-rosa. Sorrir como se fosse um habitante da Floresta Verde.

Às vezes apetece-me olhar para as coisas e sorrir. E com isso... esquecer.


[2007 ou 2008...algures por aí...]

Quinta-feira, Fevereiro 26, 2009

Reencontro

Caí outra vez na armadilha das gavetas fechadas. E foi a custo que consegui escapar. Mas valeu a pena. Hoje confirmei que lá dentro não há um eu. Há muitos eus. Imensos eus. Espalhados por incontáveis pedacinhos de papel.

(Ainda para mais datados e assinados. Ainda para mais cheios de uma confiança juvenil e incontrolavelmente cheia de si. Arrogante e arrebatadora. Ainda para mais repletos de esperanças e de sonhos. Ou de desilusões e de sombras mais negras que a noite. Nos meus eus não há meio-termo. Ou branco ou negro. Ou vida ou morte. Ou sim ou não. Ou alegria extasiante ou tristeza sepulcral.)

São outros reflexos de mim, diferentes destes. São outros pedaços em que me rasguei. Fragmentos que não lancei ao vento. Talvez num outro dia, quando tudo fizer mais sentido. De qualquer forma, alegria. A sensação de que, por trás de todas as letras de todos os meus eus, reside um fundo igual. Constante e imutável. Como se houvesse uma impressão digital por entre as linhas, uma marca de água nas folhas de papel. Talvez, afinal, eu nunca me tenha perdido de mim.

Isto sim, é uma boa notícia!

Quinta-feira, Fevereiro 19, 2009

Raio de luz

No outro dia. No comboio. O desespero apoderou-se de mim. Esse mesmo, o verdadeiro Desespero. O desespero que só consigo comparar à ideia que tenho de um buraco negro de onde nada pode escapar. Nem mesmo a luz. Nem mesmo, portanto, qualquer luz interior.

Nessa altura senti-me a desistir. Cheguei a ter vontade de. De uma vez por todas. Desistir completamente. Só não me caíram as lágrimas por vergonha. Estava em pé perto da porta. Não sei porque encostei a testa ao vidro. Talvez porque quisesse sentir na fronte a realidade dura do vidro. Talvez porque quisesse deixar cair uma parte de mim contra algo. Talvez porque quisesse encostar apenas a testa ao vidro. Não sei.

Sei que nessa altura. Enquanto a estação se aproximava rapidamente. Uma menina, com a sua mãe, colocou-se ao meu lado. Virou o rosto para o meu rosto virado para o vazio. Agora já uns milímetros afastado do vidro, mas observando a escuridão total do lado de fora do comboio. Igual à escuridão do lado de dentro de mim.

E disse-me. Juro por Deus! "Boa tarde".

O buraco negro rasgou-se. Virei-me para ela. Ela sorria, ainda com o resto das palavras nos lábios. Respondi-lhe "Boa tarde". Ainda meio surpreso de tudo. Ainda atordoado por ter escapado às garras do Desespero. Ainda incrédulo com a inverosimilidade - ou com a miraculosidade - da vida.

Saí do comboio atrás da menina e da sua mãe. Ultrapassei-as. Segui em frente. Sorri. A luz toda a pulsar dentro de mim. A força daquele sorriso e daquele "Boa tarde" a serem o combustível das minhas pernas, do meu coração. Olhei para trás duas vezes. A menina parada com a mãe a ajeitar-lhe algo no corpo. Um casaco, creio. Não interessa. Paradas. Sem uma palavra. Apenas gestos na distância.

Quando olhei a terceira vez tinham desaparecido. Apenas a imagem daquele raio de luz na escuridão ficará para sempre comigo.

"Boa tarde".

E juro que já era de noite.



[Ontem. Por volta das 19.00. A chegar à Portela]

Segunda-feira, Fevereiro 09, 2009

Branco

Perguntaram-me, com os olhos muito abertos, se me queixava de alguma coisa. Com os olhos muito abertos, como se as escleróticas assim expostas me explicassem o sentido da pergunta. O que implica que eu percebesse o que são queixas e o que não são queixas. Não sei se consigo. Por isso silêncio. E os meus olhos sem escleróticas a mais. Com a expressão neutra de quem olha através de tudo na procura de uma imagem de felicidade. Como procurando raspar a tinta das coisas, dos dias, das pessoas. Até vislumbrar a armação nua das horas.

As queixas, em si mesmas, são inúteis. Subjectivas como dias agradáveis ou desagradáveis. Ainda que eu me despedaçasse por dentro, que toda a minha alma se corrompesse de caruncho, comida pela cólera do vazio. Ainda que eu estivesse a um passo do abismo. Melhor, ainda que o abismo todo estivesse dentro de mim e não houvesse já qualquer passo a dar. Mesmo nessa situação eu poderia abster-me de me queixar. De levantar a mão na fila da vida (talvez arregalando os olhos até a pupila parecer um berlinde numa nuvem branca) e gritar bem alto: Eu quero fazer uma queixa! Porque sofrer é algo. Considerar um motivo válido para erguer a voz e soprar esta dor nos ouvidos transeuntes é uma coisa totalmente diferente.

Não. Não me queixo de nada. A noite correu como qualquer outra e não preciso de coisa alguma. Só de silêncio e de uma janela aberta que dê para um pomar em flor. Sem isso tudo são queixas e é precisamente por isso que nada são queixas.

O que mais me custa é o branco. Das pessoas e dos dias que se arrastam em direcção a um outro sonho. O branco estéril das folhas de papel, das seringas, das batas, das luvas, das toalhas, dos lençóis. O branco todo nas escleróticas abertas com muita força até eu compreender que é impossível seguir todas as manhãs a negação absoluta das queixas.

Espantosa, no entanto, é a evidência de que as horas passam. Que o sangue espesso dos dias, das tardes, das noites e das madrugadas. Que todo este sangue viscoso flui. No meu olhar há sempre o mesmo instante, completo e eterno, imune a horas do dia ou da noite. Imune a frio ou calor, suspenso numa lucidez cortante, que nenhuma escuridão ousa vencer. E, apesar de tudo, o mundo gira uma vez por dia. E há sempre pássaros ao longe, nos galhos da árvore grande que adivinho à distância.

Não sei como vim aqui parar, ou como o meu corpo (hoje nau encalhada, com rombos no casco e abandonada na praia do tempo) se derreteu nestes ossos e nestas peles sem futuro. Mas mais triste ainda, sem passado. Sem passado porque nas memórias cheias de cores (onde o branco era só das nuvens e das roupas acabadas de lavar no tanque, penduradas na corda debaixo do coberto) e de prados com flores. Nestas memórias mora um corpo diferente, são e forte como um touro à solta pelos campos. E hoje... Que a arena implacável ferve. Fere. Em golpes de bandarilhas desferidos em todos os ossos (Em todos os tendões. Em todas as articulações. Em todos os músculos. Em todos os dentros). Hoje, antes do meu olhar se tornar turvo. Antes que se reflicta nele a luz baça da última hora e o branco me apague o brilho das pupilas, as pupilas, o corpo todo. Hoje, antes de tudo isso, o meu corpo mutilado e turturado é uma mentira que me recuso a compreender.

Por isso, amanhã de manhã, quando me perguntarem com os olhos muito abertos, se me queixo de alguma coisa. Depois dos meus olhos neutros e do meu silêncio. Vou dizer que não, fechar os olhos e adormecer encostado ao tronco rugoso da árvore grande do pomar.



[19/10/2006... Escrito numa página de Diário Clínico, no comboio para casa... Deve ser tão triste ser um dos doentes nas camas dos hospitais, pelas manhãs...]

Sábado, Fevereiro 07, 2009

Areal

O dedo do teu pé a rasgar na mansidão do areal sulcos vivos. A escrever vales no meio de montanhas. A formar cordilheiras de areia tornadas letras. O dedo do teu pé. Que é o sacho de um lavrador qualquer num final de tarde. Que é o sacho do meu avô.

Ou a sachola pequena com que eu o imitava. E que o fazia sorrir como se o tempo parasse e existíssemos só nós na horta ao entardecer.

O dedo do teu pé que. Dizia. É um sacho a abrir na terra carreiros firmes. É um sacho a profetizar um bom ano e uma boa colheita. É um sacho a jurar jantares por vir e o fumo da chaminé em noites de Inverno.



O dedo do teu pé a rasgar na mansidão do areal sulcos vivos. Sacho a fertilizar a terra. A vida. De sementes de amor e dias felizes. Onde. Num deles. Eu de sachola na mão a escrever AMO-TE no fundo da horta.




[17/11/2005]

Onde estás?

Onde estás? - Gritei. Mas a noite engoliu as minhas palavras.






[Há tempos...]

Terça-feira, Fevereiro 03, 2009

Sentinelas

Acabou o tempo e semeámos rosas da palma das mãos. Por cima de nós os restos de um dia que se punha. Ao longe. No horizonte de montes sobrepostos.

[Os montes mágicos. Soprados por uma ténue aragem de fim de tarde de Verão. Com árvores dispersas e espaço para sonhar entre elas. Os montes que eram promessas adiadas. Que apeteciam tanto como uma guloseima guardada no bolso da camisa. E o prazer de não a comer. De a ter guardada. A fazer aumentar. Segundo a segundo. Minuto a minuto. Hora a hora. A deliciosa expectativa do momento por vir. Do desembrulhar crepitante do papel de embrulho. Mais intenso. Mais nítido. Do sabor todo na ponta da língua. Na língua toda. Não só o corpo, mas a alma também, a saborearem mais que a guloseima. A saborearem a vida. Assim apeteciam os montes.]

Depois das mãos vazias. Do dever cumprido. O ar tornou-se mais pesado. Com cheiro a noite sem luar. Na mesma altura começou a lenta melodia dos sinos da igreja. Grave. Soturna. Compassada. Como pancadas ameaçadoras na soleira da alma. Como medos vertendo-se para dentro das gentes.

[ O ruído tenebroso dos sinos. A lembrar-nos da nossa mortalidade. A maneira como ecoa no negro. No silêncio da noite. Como cada badalada carrega todas as coisas sérias. E reais. E inevitáveis. Da vida. E como. Cada intervalo de silêncio entre elas. Dura eras. Eras cheias de tudo o que não cabe fora delas. Memórias dos que se foram. Sorrisos da pessoa amada. O calor do Sol a bater no rosto numa qualquer tarde de Primavera. O cantar dos pássaros na distância. O suor a escorrer da testa. A cair na terra acabada de sachar. O som do vento entre as folhas das árvores. O recreio da escola. A gritaria dos colegas. O ruído dos grilos. E depois outra badalada imperturbável. Convicta. A impregnar o ar de arrepios na espinha. E isto repetido. Uma vez. Duas vezes. Muitas vezes. Até tudo cessar em silêncio.]

Então fechámos os olhos. De-mo-nos as mãos. Sorrimos ao de leve. E. Calmamente. Caminhámos de encontro a um novo amanhecer.




[2008...]

As palavras foram

As palavras foram sortes jogadas na noite
Sementes de ódio e amor,
Sem as quais nada faria sentido.

Todas estavam prenhas de nós,
Dos nossos medos e dos nossos sonhos.
Foram palavras de sangue,
Vociferadas contra o vento.
Foram faróis que feriram e fendiram o vazio.
Foram facas de gume afiado
Apertadas contra as goelas do tempo.

Foram sóis.
Foram fogueiras acesas no breu,
Onde procurámos aquecer-nos da morte.

As palavras foram bombas explodindo da boca
E estilhaços de granadas no coração.
Mas também flores.
E delírios de pássaros doutros tempos.
Doutras eras.

As palavras foram silvas e urtigas,
Rasgando a pele de tudo.
Foram saraiva contra o rosto,
Granizo nos dentes. Trovoes nos tímpanos.

As palavras.
Foram.
E não mais as soubemos encontrar.

[2008]

Terça-feira, Janeiro 27, 2009

O voo

Fui à janela e nada. Ninguém do outro lado do vidro. A rua, talvez não rua mas algo, sem ninguém. Apenas a silhueta ténue de uma árvore através da espessura do ar.

Abri a janela e voei. Ou caí. Talvez tenha caído pensando que voava. Ou talvez voasse pensando em cair. De qualquer das maneiras soltei-me.

Abri a janela e de repente o meu corpo todo a viajar. Para longe da janela. E dos medos sem nome escondidos à espreita.

Isto durou uns segundos. Depois a janela abriu os braços e puxou-me para dentro. Para trás dos vidros fechados.

Sozinho num novo amanhecer.

[2007. Talvez....]

Segunda-feira, Janeiro 19, 2009

Compasso de três tempos

A sereia. A vida. A dor dos caminhos de terra batida... A colmeia. A tortura. A clausura de não saber rir... A mão. A solidão. A tremura dos dias vazios... A máscara. A lágrima. A imensidão do mar longínquo...A sentinela. A baioneta. A força dura do aço na pele... A líbido. A raiva. A magia surda dos corpos... A dor. A serpentina. A explosão do Sol na cara.

A areia. A arena. A queimadura de viver.


[4/12/2009 - Escrito sem reticências nem espaços. Mas, na mente, tripartido. Aqui, pareceu melhor...]

Quarta-feira, Dezembro 31, 2008

A Revolução vai ter de esperar

Acabou o ano. Bem, talvez ainda não tenha acabado. Mas é como se tivesse acabado. Faltam poucas horas. Aqui em Portugal, claro. Noutros locais o ano já acabou.
Por isso, digamos que acabou o ano.

E que ano este. O ano mais pequeno de que me lembro. Não me importa que tenha mais um segundo. Para mim, este foi o ano mais pequeno da minha vida. Um ano pequeno que é como quem diz um ano vazio. E aqui uma pequena curiosidade. Dizem que quando se faz o que se gosta, o tempo voa. E que, quando se faz o que se não gosta, ele abranda, tropeça, quase cai, quase pára. Pois bem, este ano nem foi cheio e pequeno, nem vazio e grande. Foi, assim mesmo, pequeno e vazio. Quase uma impossibilidade. Quase uma nulidade. Quase um pequeno absurdo temporal. Um lapso. Um algo-que-não-existiu.

Chego ao fim do ano muito relutantemente. Com dificuldade em aceitar que, dentro de horas, serei obrigado a festejar outro ano. Carrego a ideia de que 2008 ainda mal começou. Lembro-me claramente das promessas que fiz no primeiro dia de 2008. Lembro-me da esperança. Custa-me admitir que não se passou nada como eu previa. Que a esperança, em que acreditei firmemente (e aqui reside a desilusão, pois há muitas esperanças em que não creio... mas nesta cri muito), morre hoje à noite. Pois a esperança tinha uma delimitação temporal. 2008 ia ser um ano em cheio, um ano em grande! E... vejam... até agora não foi senão um ano em vazio, um ano em pequeno. Falta-me o cinismo nestas últimas horas do ano. O cinismo necessário para que, dentro de horas, renove votos e, com isso, desenterre outra esperança do fundo da alma.

Outra esperança para ocupar o lugar da falecida no segundo anterior. A nova esperança de 2009, tão igual à do 2008, que passou sem eu lhe ter posto a vista em cima. A nova esperança de 2009 a substituir a velha esperança de 2008, ainda viva subrepticiamente até ao ...0... da contagem decrescente.

Falta-me o cinismo para sorrir perante a hora-notícia de que me menti. Falta-me coragem para sorrir perante o minuto-notícia de que mais um ano findou e eu não empecei.

Falta-me lata para sorrir perante o segundo-notícia de que 366 dias e 1 segundo passaram sem que eu me erguesse do cadeirão da mente e começasse a revolução.

Quinta-feira, Outubro 16, 2008

Os dias movediços

Uff... há dias que atravessamos como se estivéssemos perdidos num bosque muito escuro e cheio de perigos. Um bosque claustrofóbico, onde cada sombra nos quer agarrar pelos tornozelos e impedir de chegar a casa.

( A casa de pedra, com o fumo bom a sair pela chaminé e com raios de luz a escoarem-se pelas frestas da porta e das janelas)

Hoje foi assim. Parecia correr, como nos sonhos, mas não saía do lugar. Parecia olhar para baixo, a cada momento, para me ver descalço, ou de chinelos, ou de pijama. Parecia tentar chegar a algum lado. Mas, a cada movimento, parecia afundar-me mais nas areias movediças do dia. Do dia movediço em que acordei.

É por isso que há três tipos de dias, quando chegamos a casa. Os dias em que nos sentamos no sofá. Os dias em que tombamos sobre o sofá. E os dias movediços, em que caímos aos pés do sofá e rastejamos uns centímetros, de joelhos, para podermos pousar a cabeça sobre o assento.

(E, assim, desistirmos um pouco mais.)

Sábado, Outubro 04, 2008

Feitiçaria

Os dedos em cima do teclado, como num piano. Tensos. Prontos a disparar por sobre a maciez das teclas. O premir abafado e seco. Agradável. Quase aconchegante. Um ritmo que nos embala. Até parecer que os dedos se mexem sozinhos. Com vontade própria e sem que nós os possamos impedir.

Nesta altura as palvras parecem surgir do vazio em nosso redor. As mãos são redes de pesca. Desfocamos o olhar e são mesmo. Dançam mecanicamente. Dançam freneticamente. Dançam harmoniosamente. Como redes de pesca erguidas. Lançadas. Recolhidas. Na madrugada duma traineira ao luar. As palavras, peixes voláteis e milagrosos, caem das redes quando estas beijam o convés. E então são, por instantes, nossas.

Outras vezes é magia pura. As mãos agitam-se muito depressa. Tanto que os olhos nos mentem. E vemos os dedos multiplicarem-se num enorme rasto de luz. É nessa altura que. Da ponta dos dedos. Nos caem os pós de perlimpimpim. Então, deixamos de tocar o teclado. Levitamos por cima dele. E os pós de perlimpimpim rodopiam numa espiral que ergue as letras ao ar. Bem alto. Bem alto. E as deixa cair (Que assombro!)abraçadas, em forma de palavras.

Há ainda ocasiões em que as mãos são duas aranhas gigantes. Sim, é isso que elas são! Olhem para elas! Aranhas sagradas e sem descanso, tecendo uma teia de sonhos. Uma filigrana quase invisível de letras. De palavras em branco-pérola. Oiçam o seu roçagar. A sinfonia que advém da sua azáfama. Rendilhada e cheia de vida. Mística e libertadora.

Sábado, Julho 26, 2008

Cansaço.

Um dia. De repente. Cansei-me. Sem que nada o indiciasse. Nada de que eu me apercebesse, claro está. Ninguém me garante que, no fundo do meu inconsciente, as rodas do mecanismo não estivessem já em movimento. A rodar em surdina. Activando silenciosamente toda a engrenagem. Todas as sinapses por sentir. Que conduziram a isto.

Um dia, de repente, cansei-me. Cansei-me de tanta coisa de que nunca me cansara antes. Cansei-me de tanta coisa que sempre me dera prazer e alegria. Cansei-me mesmo. Receio não saber explicar bem o que se passou. A verdade é que olho para trás na linha do tempo e vejo dois momentos adjacentes. No primeiro, tudo estava calmo. Eu e as minhas rotinas todas. Eu e o meu sossego despreocupado. No momento imediatamente seguinte, cansei-me. E fiquei mais livre das rotinas. Que, às vezes, vejo-o agora, pesavam como se fizessem parte de mim. Como se fossem apêndices muito pesados e grandes e disformes. Como um braço extra, com uns 2 metros de comprimento. Ou uma perna de chumbo a sair do fundo das costas.

Cansei-me um dia. De repente. E desde esse momento sou mais eu. E nunca mais precisei de descansar.

Sexta-feira, Julho 11, 2008

As gavetas do quarto...

Abri outra vez uma das gavetas. Uma das muitas espalhadas pelo quarto. Tantas que o quarto parece existir para que elas o encham. Abri uma das gavetas e tudo recomeçou. Mais uma vez o vórtex (Gosto da palavra vórtex. Será que deveria escrever vórtice? Não me interessa. Vórtex.) aspirou-me para outros tempos. Outros dias. Outros eus.

E mais uma vez fui a Alice a cair pela toca abaixo. E à frente dos meus olhos incrédulos desenrolaram-se imagens do passado. Imagens em papel timbrado. E por timbrar. Palavras e mais palavras. Frases completas vindas do silêncio sepulcral de cartas e postais. E mais cartas. E mais postais. Frases de amor e de dor. Palavras meigas. Palavras duras. Palavras afiadas como facas no peito. Palavras moles a desfazerem-se na ponta da língua. E mais postais de todas as cores. Paisagens que nunca visitei. Envelopes brancos com rebordo azul. Envelopes brancos. Vermelhos. Outros com laivos de cor-de-rosa. Envelopes castanhos em papel reciclado. Letras por todo o lado. De todos os tipos. Azuis e pretas. Vermelhas. Cor-de-rosa ou de outra flor qualquer. Letras redondas. Letras esguias. Letras tombadas ora para um lado ora para outro. Letras cheias de vida. De vidas.

Foi como se se levantasse dentro do peito uma tempestade. Um furacão que varre qualquer coisa por dentro da alma. E deixa tudo meio vazio. Meio triste. Meio incompleto. Meio sozinho.

Num ápice, no entanto, tudo acabou. Não caí no fundo da toca. Ou da gaveta. Apanhei simplesmente o passado. Os passados. Do meio do chão para onde haviam caído e por onde se haviam espalhado. E guardei-os bem no fundo da gaveta.

Depois fechei-a.

E aqui fiquei.


[Hoje]

Terça-feira, Abril 29, 2008

O limbo

Passaram já muitos dias desde que tudo ficou na mesma. Muitos dias desde que o mesmo dia se arrasta à espera de uma noite e de uma madrugada. Passaram já muitas horas, fechadas dentro de si mesmas como se nada brilhasse por fora delas. E passaram os minutos e os segundos loucos. Loucos e iguais. Iguais e cinzentos. Cinzentos e cor de chuva. Ou de pó. Ou será o cheiro? De qualquer modo, passou tudo. Ou terá passado nada? Não sei. Não me recordo. O dia não acaba. Não passa. Não cessa. E por dentro tudo falece. Aos poucos. Como numa sinfonia ao longe, à beira da falésia. Lenta como só as sinfonias lentas. (E ainda mais. Como se os sons não fossem sons, mas fotografias de sons espalhadas pelo céu azul-quase-noite.) Lenta como o repicar dos sinos na igreja de um dia.

Fora isso nada. Como nada? Nada. Uma manhã-tarde que não se despe na noite. Uma luz fosca. Dúbia. Inerte. Que tudo mirra. Que tudo proíbe. Um limbo onde nada cessa. Onde nada principia. Como um calvário à luz gasta de um sol-que-nunca-se-põe.

[Agora mesmo... :)]

Terça-feira, Abril 08, 2008

A praça...

Há um rumor no silêncio dos dias que me faz pensar em ti. Recordar-te entre os atropelos do metro, em plena correria da vida quotidiana. Há qualquer coisa de ti, ainda, aqui, agora.

O perfume de rosa que emanava de todos os poros do teu corpo, o teu cabelo brilhando ao Sol, a agilidade felina da tua pele, os teus passos decididos, firmes, temerários, que foram feitos para governar o mundo, neste ou noutro tempo qualquer. Fecho os olhos e lá estás tu, a percorrer a praça pela manhã, o vestido ondulando ao vento, a terra batida a esvoaçar em redor, o ritmo mecânico do bater dos saltos no empedrado. Eu estava ao fundo, no banco de jardim que ficava debaixo do plátano centenário, donde se via todo o largo principal. Ao fundo, dominante, a velha igreja, com o catavento corroído mais pelo passar dos dias do que pela chuva, que nesses anos era pouca, em cuja escadaria mendigos proliferavam.

Dos lados, as antigas casas senhoriais, transformadas com o decorrer do tempo e o declínio das fortunas individuais, em mercearias, tabernas e retrosarias. Havia ainda o edifício dos correios, do lado esquerdo da igreja e, no meio da praça, a estátua de um combatente sem nome, sem pátria, sem medo e até sem cabeça, desde há décadas.

Era domingo de manhã, à hora de saída da missa, não havia os vendedores ambulantes de sempre, não havia o apregoar constante, o buliço infernal dos dias de semana. O sino dava as dez badaladas e então começava o parto prolongado das portas da catedral, os mais apressados primeiro, estugando o passo até desaparecerem na esquina mais próxima, ainda de chapéu na mão e já desabotoando o casaco, demasiado quente para qualquer dia do ano. Vinha depois o pelotão de gente, heterogéneo e informe, que descia as escadinhas da igreja e se espalhava pela praça como um enxame de abelhas ao qual se roubou a colmeia. Por fim, começava o longo desfile dos mais demorados, dos que se delongavam mais em frente deste ou daquele altar, das beatas que vinham de se confessar, dos que tinham adormecido a meio da função.

Tu vinhas com o grosso da multidão, mas lembro-te hoje como se viesses sozinha, destapando o véu aos primeiros degraus, dando esmola ao mendigo que te parecesse menos merecedor, brilhando na multidão sem rosto e sem nome como uma pérola num barril de petróleo.
Seguia então os teus passos, a graça do teu corpo a serpentear por entre as linhas austeras e antiquadas da praça, a serenidade insolente do teu porte, o olhar altivo e imperial.
E os teus passos silenciavam todos os ruídos em teu redor. Cessava o rumor incoerente das pessoas da praça, o silvo do vento por entre os ramos da árvore, o trotar dos cavalos, ao longe, numa rua da periferia da cidade.

Vejo-te agora tão nítida como então. Vislumbro o teu vestido a ondular no meio da multidão que sai do metropolitano, capto um relance do teu rosto da janela suja do comboio, volto-me para trás nas ruas aturdidas da cidade depois de ouvir os teus passos seguros, confiantes, vivos.

A vertigem do tempo é uma espiral que me atrai para ti, para a alegria imemorial de te ver bela e jovem e fresca, como nessas tardes de Primavera primordiais.



[2004... nada de especial]

Terça-feira, Janeiro 29, 2008

Magoito

Era frio. Fim de um Setembro dorminhoco. A tarde caía sobre o mar reflectida nas falésias. No ar a promessa de uma noite estrelada. Café. Esplanada do café com vista para o fim de tarde. As tuas pernas cruzadas. O café meio vazio. O mil folhas meio comido. Qualquer coisa nos teus olhos dizia adeus, mas eu não sabia o que era. As rugas-bebés em torno dos teus lábios. Dos teus olhos. As tuas mãos esquecidas entre a mesa e o vazio. No ar uma gaivota igual às outras. E o guinchos iguais aos guinchos de outros dias. Mesmo assim a tua boca mais comprimida do que o normal. Uma certa inquietude nas pupilas.

E depois. A tua mão a afastar um pouco o cabelo dos olhos. Um leve inclinar de cabeça para trás. Um pestanejar rápido numa inspiração prolongada.


- Não dá!


( O arrastar da cadeira que não ouvi. O teu lugar vazio. O café meio cheio. O mil folhas meio intacto. A nossa conversa meio acabada.

E na boca o sal. Igual ao das ondas lá em baixo. )

Segunda-feira, Janeiro 28, 2008

Cegueira

Ultimamente. A dificuldade grande. Anteriormente desconhecida em mim. De descobrir os lugares secretos nas coisas. De conseguir encontrar. Por detrás das fachadas de tudo. Os recantos mágicos que nos fazem sorrir. Que salpicam de vida. E de luz. Até os dias mais escuros.

Sabem do que falo. Daquela sensação de calor que nos invade por dentro. Quando vislumbramos o cantinho em que cada pessoa se esconde do mundo. O cantinho que tenta a todo o custo proteger da vista de estranhos. O calor que nos invade quando sentimos a pura beleza desse santuário. A alegria contida. Reservada. Profunda. Que sentimos por descobrir. No meio do que até então era alguém. Um ser humano. Como nós.

Ou apenas a felicidade menos metafórica de descobrir. Fisicamente. No meio dos locais sujos e degradados onde somos forçados a viver. Um recanto bonito. Apenas isso. Bonito. Sem mais adjectivos ou figuras de estilo. É difícil achar a beleza nos dias que correm. Pelo menos para mim tem-no sido ultimamente.

Mais nada. Apenas isto. A dificuldade que dantes não sentia. De descobrir os lugares secretos nas coisas.


( Às vezes não sei se são os olhos. Se estão gastos. Se estão habituados a todas as emoções, a todas as alegrias e a todas as tristezas que este mundo tem para oferecer. Outras vezes penso que o problema está noutro local. Uns dirão que no coração.Outros dirão que no cérebro. Ao certo só sei que já poucas coisas me fazem sorrir, como faziam. Até o espanto se me está a tornar, de dia para dia, um sentimento estranho. Às vezes penso nos peixes. E nos outros animais, mas principalmente nos peixes. Diz-se que têm uma memória de curtíssima duração. Que nem lhes permite ter a noção de que estão dentro de um aquário. Eu, se estivesse preso num local para toda a vida. Também gostaria de ter essa vantagem evolutiva... para não enlouquecer de vez.

...ei... percebem a ironia? ...

Este ano, no Carnaval, vou de peixe!)

Segunda-feira, Dezembro 03, 2007

Dias curtos

Está escuro e vazio aqui. Está silêncio. Está solidão. Está um aperto qualquer a esmagar um algo dentro de mim (eu todo?). Está frio. Não disse já tantas vezes isto? Que está frio por dentro. Mesmo que por fora não esteja. Mesmo que haja Sol e sombras frescas ao longo de uma vinha cerrada. Pois digo-o de novo. Está frio. E já que estamos nisto, digo que está escuro também. E vazio. Já que recaí na tentação das vírgulas, tanto me dá que me repita em palavras. O que eu queria era algo novo. A panaceia, não o placebo. Estou farto de placebos.

Ultimamente tenho estado diferente. Tenho sido diferente. Há qualquer coisa cá dentro que não pára de me angustiar. Eu sei o que é, mas não digo. Chamo-lhe "coisa", para não lhe chamar pelo nome. Apenas nomeá-la me entristece e, quase, me ensandece.

Não vale a pena mais isto. Por hoje, terá de bastar a convicção de que está solidão, dentro de um frio escuro e vazio. Com um silêncio que esmaga tudo, como melodia de fundo. Para quando (se alguma vez de novo...) os dias grandes de Verão?

Quinta-feira, Novembro 29, 2007

Preconceito

É incrível. A quantidade de vezes em que não vemos as coisas como elas realmente são. A quantidade de vezes em que olhamos e pensamos que toda a verdade está no que vemos. A quantidade de vezes em que conceitos pré-formados nos turvam os olhos e nos impedem de ouvir o bater do coração.

(E até pensamos que não. E até pensamos que não somos assim. E até sabemos recriminar e apontar o dedo a todos os que fazem o mesmo. E até nos julgamos diferentes. )

É incrível. A maneira sub-reptícia e dissimulada como trazemos nevoeiro nos olhos e almofadas no coração. Que não nos deixam ver. Nem sentir. A verdade que vive. Vive! Nas coisas.

Sexta-feira, Outubro 26, 2007

Ninja

Tenho mil folhas rasgadas em cadernos na alma. Outras tantas escritas por todo o lado. Sou escritor-furtivo. Ataco em qualquer sítio, a qualquer hora. Ninguém me vê ou conhece como é a tinta das minhas canetas num papel timbrado. Ninguém adivinha os dentros por escrever que germinam em mim como ervas daninhas.

Sou ninja. Das palavras. Não faço sons. Ninguém me ouve quando passo pelas folhas como comboio sem destino. Ou com um. Lá muito ao longe. Quando me faltar a força na ponta dos dedos.



[2005]

Insónias

De vez em quando as insónias agarram-me como se elas próprias tentassem dormir e não conseguissem.




[Ha muito, muito tempo...]

Terça-feira, Outubro 02, 2007

Calor

Searas dos dias.
O tempo seco e abrasador
das palavras inúteis.
Árvores sem sombra.
Fantasmas esquecidos e sedentos.
A distância mentirosa.
O bailado de morte das horas.
Por todo o lado a certeza.
A certeza que corta fundo
na pele árida.
De que amanhã é só uma
palavra poeirenta.





[Há uns meses]

Palavras

Dantes tinha palavras. Guardadas num qualquer saco sem fundo. Escondidas dos locais à superfície da pele, onde podiam sujar-se com a poeira dos dias.
Ficavam resguardadas de tudo. E de mim. Até ao momento exacto em que qualquer engrenagem silenciosa da alma se iniciava. E as pedia insistentemente, como se não houvesse mais nada de essencial na vida. Como se fossem a solução para todos os problemas, a panaceia para todos os males.
Era então que o saco de palavras se abria o tempo exacto para que aquelas necessárias viessem até mim, como pequenos milagres.

Hoje, infelizmente, parece que o saco desapareceu. Ou talvez a engrenagem esteja perra. Ou talvez as palavras tenham deixado de ser essenciais. Não sei bem.

Só sei que. Agora. Já não tenho palavras.

Quarta-feira, Julho 18, 2007

O guardador

Guardo coisas de mais. Fora de mim, nas gavetas/alçapões-de-memórias do meu quarto. E dentro de mim, em qualquer lugar inacessível à vista, mas doloroso na alma. Por vezes guardo-me a mim mesmo, hermeticamente fechado, por dentro de uma cara e de uma atitude que não me são transparentes.

[Antigo...]

Sábado, Junho 30, 2007

Espero por ti nas brumas da noite

Espero por ti nas brumas da noite.
As costas contra o frio áspero do muro.
O muro contra o frio rugoso das costas.
Acendo um cigarro para que o tempo passe mais depressa.
Para que o tempo me morra entre os dedos num clarão laranja.
Até a polpa dos dedos doer de calor.
Na mão esquerda um ramo de tulipas embrulhado em papel azul.
A perna esquerda esticada a roçar no papel azul crocante das tulipas.
O pé direito no muro e o joelho em riste.
O relógio de pulso que não avança.
Parado como numa hora de ponta infernal.
O vento parece soprar com mais força.
Como se quisesse varrer-me da rua.
Varrer a rua de mim.
O azul estaladiço do papel das tulipas contra a perna esquerda.
O tic-tac quase imperceptível - ensurdecedor - do relógio.
O clarão laranja entre os dedos.
O frio gélido - de morte - nas costas.
A dor do calor na polpa dos dedos a anunciar-me mais um fim.
Do cigarro.
Da espera e da esperança desta noite.
O pé direito de encontro ao muro impulsiona-me todo para fora dele.
Vai-se o frio do muro e fica o frio glacial das costas.
Arremesso o ramo de tulipas por cima do muro.
Para o quintal da casa abandonada onde um dia viveste.
O papel azul amarrotado a tomar o seu lugar por entre centenas de outros papéis amarrotados e crocantes.
De todas as cores.
Com tulipas murchas - ou por murchar - dentro.
Afasto-me cabisbaixo.
Amanhã virás.
E fugiremos então.
Como me prometeste.
De mãos dadas pelas brumas da noite.
Enquanto em tua casa todos dormem.
Eu esperarei por ti no muro.
Comprar-te-ei um ramo de flores sem que saibas.
Tulipas como tu gostas.
Embrulhadas em papel crocante para que sorrias.
Fugiremos então.
De encontro a uma alvorada prometida.
Sim.
Amanhã virás.
Agacho-me.
Encolho-me todo contra o muro abandonado.
Sem ti.
A cabeça entre as mãos.
E choro.
Choro.
Choro.



[Não fumo...]

Sintra a meio da tarde

Sintra a meio da tarde. Enquanto os turistas percorrem as estreitas vielas da vila velha. Um Sol quente e desejado de uma Primavera que ainda não o foi. Apenas uma leve brisa a enganar o calor. A soprar o lume dos corpos.

Os sons todos. Pessoas que falam ao longe e ao perto. Em português e em línguas díspares, numa amálgama de Babel. O esvoaçar rápido das pombas a levantarem voo, enquanto outras arrolam na distância. O sino da igreja a tocar duas vezes. O ruído de motores. De todo o tipo de automóveis e também de uma avioneta que agora passa. O trotar dos cascos dos cavalos a entoar no alcatrão, na calçada.

O tinir metálico dos postes embandeirados a dançarem com o vento. O estalar do teçido de que são feitas as bandeiras.

Travagens. Os passos das pessoas. Algum carro apita.



Assim. A meio da tarde. Sintra é uma canção de embalar.

Segunda-feira, Maio 14, 2007

Natal

É dia de Natal. 2006. A serra. Hoje. Usou a a paleta toda de cores para dizer adeus ao dia. No céu as nuvens, apesar de imóveis, parecem partir. Fazem lembrar muitos pedacinhos de algodão cinzento em carreira. Contra um fundo em gradiente. De vermelho a azul. Como um arco-íris disperso. Como um disperso-íris no horizonte.

Em redor há casas fechadas com gente dentro. Ao lado de casas fechadas com gente dentro. Assim numa extensão de quilómetros até o sopé da serra nascer da planície de paredes brancas. Das janelas pendem cachos de luzes às cores. Ou pais-natais em pose de assaltantes subindo as casas. Nas ruas há pouca gente. Poucos carros. Poucos sons.

Presumo que os sons estejam fechados em casas com gente dentro. Gente cujos rostos não adivinho. Cujo sorriso não posso imaginar. Gente feliz, talvez. Gente triste que pensa (ou que tenta. Ou que quer acreditar) ser feliz, também. Gente que pendura cachos de luzes às cores de frente para um pôr-do-Sol inesquecível e se fecha em casas com gente dentro.


E cá fora. Eu. Apesar de imóvel. Pareço partir.




[Natal.2006]

Quinta-feira, Abril 26, 2007

Fantasma...

A tua imagem seguiu-me o dia todo. Acordei de manhã com a cabeça pesada e os olhos semicerrados e, enquanto me habiuava à última escuridão da madrugada, vi-te na janela. Fantasma de rosto duro e sem expressão.

Mais tarde, no Metropolitano, em hora de ponta, viajaste perto de mim. Entre nós não haviam mais de sete corpos a balouçar com o andamento da carruagem. Estavas encaixada entre um homem vestido de negro (rosto mirando o chão, cabelo preto a rarear no topo da cabeça) e uma idosa de olhar surpreendentemente jovial.
Trazias um vestido azul, com a cor do céu quando acaba de nascer o dia. Esvoaçava em teu redor como searas perdidas na distância de uma paisagem que não sei situar. Estavas feliz. Sem a máscara fria e dura dos dias frios e duros da vida.

À noite. Quando reentrei em casa. Estavas sentada no sofá. Em frente da televisão apagada. O cabelo caía-te pelos ombros em tiras irregulares de castanho escuro. As mãos escondiam-te o rosto. Os joelhos estavam juntos. Os pés também. Toda tu eras uma enorme solidão parda.
Não te mexeste qundo fechei a porta com ímpeto. Não te mexeste quando me descalçei, nem quando pousei o casaco nas costas da cadeira. Não te mexeste quando fingi trautear uma canção que me ensinaste um dia.

Acabei por ir até à cozinha, para sentir o gelo da bebida a queimar na boca. No esófago. Até ao estômago.

Quando regressei à sala não estavas. No teu lugar apenas o fim de mais um dia. Arrastado e igual ao fim de tantos outros dias.

Sentei-me no sofá (ao teu lado, se lá estivesses). Liguei a televisão por instantes. Terminei a bebida. E depois ergui-me e, como um condenado à morte se dirige ao cadafalso, escoltei-me até ao quarto. Onde caí na cama com o peso do mundo. E fechei os olhos com muita força, para te ver outra vez.


[25/04/2007]

Sexta-feira, Março 16, 2007

Manuel e Alzira

Dantes a estrada de terra batida era tudo. A poeira que se elevava do chão ferido pelas rodas do carro sabia bem como beijos de mãe. Do lado direito. Ao fundo da estrada estreita, onde mal cabia o nosso carro, dois pedaços de muro dividiam o mundo. Ajudados pelo portão de ferro vermelho. De onde se soltavam lascas de tinta que deixavam à mostra a ferrugem castanha do tempo.

O portão que subia em pequeno. Com os pés fincados no bordado de ferro. Que subia para me sentir balouçar nas dobradiças gastas pelos anos. O portão onde me feri na coxa esquerda. Com a ponta de uma seta de ferro que se erguia no ar.

Para lá do muro e do portão havia o vosso mundo. A relva marcada pelo passar dos pneus. O canteiro de flores do lado esquerdo, antes das escadinhas de pedra. Onde vocês nos esperavam sempre como se a salvação estivesse no nosso abraço e tudo o que era mau se escondesse a correr, no fundo do baixo que ficava a seguir à casa. A seguir à relva.
Mas antes da horta. Antes dos morangueiros. Antes das pereiras que vertiam os seus frutos no chão como se chorassem muito. E eu não as quisesse perceber.
Do lado direito outras árvores. Outras plantações. E ao fundo mais árvores altas. Com bicicletas e câmaras de ar antigas. Mais antigas do que eu. Presas nos ramos.

O mundo todo que havia nesse quintal. Quando era pequeno e olhava para as árvores do fundo era como se olhasse para todo o Universo. Gostava muito. Gostava tanto. De pensar que as árvores do fundo ficavam numa distância infinita. Que o caminho até lá era mágico e que tinha segredos por descobrir.

Acho que foi por isso que nunca gostei de passear em toda a extensão da horta. De uma vez. Para não ter a certeza triste e dolorosa que aquele espaço era finito. Pequeno. Talvez. Até. Sem magia.

(...)

Agora tudo mudou. Passei lá neste Verão e deu-me nos olhos uma tempestade.
Não restava nada do que um dia existiu. De um certo modo estava tudo igual. Muro. Portão. Relva. Canteiro. Degraus. Porta de madeira da casa. Quintal. Árvores do fundo. Mas estava tudo triste. Estava tudo morto. Tudo morto e transformado numa aberração do paraíso que fora.

Desde que vocês se foram. E não há ninguém à nossa espera nos degraus das escadas. Para nos abraçar e dizer quantas saudades tinham tido nossas. Tudo está morto. E agora... Eu não posso... Abraçar-vos e dizer quantas saudades tenho vossas.




[06-12-2005]

Terça-feira, Janeiro 16, 2007

Acordar ao teu lado (num tempo de espuma e relógios parados)

Eram sete da manhã e a luz entrava nua e fria pelos espaços do estore mal corrido. No ar a fragrância da noite reinava ainda sobre a multidão de coisas por arrumar que habitava o quarto.
O teu corpo encostado. Ancorado. Ao meu, como navio no cais à espera de ondas por vir. A palma da minha mão aberta.

As rugas da pele a envelhecer. A secura dos dedos. As veias proeminentes. A lembrarem rios e desertos e serras.

Estendida sobre a tua coxa semi-desvendada por um capricho do lençol e da noite. A sensação quente e doce do toque da tua pele na ponta dos dedos. Como um embalar-te sem te ter nos braços.

A brancura do teu pescoço. Os minúsculos e inúmeros cabelos a emergirem da tua nuca com a beleza mágica duma orla de floresta. O cair dos teus cabelos sobre a almofada. Sobre o ombro de encontro à cama. Uma clave de sol a desenhar a tua orelha no amanhecer do dia.

O calor morno do teu corpo a dormir a chegar até à fronteira do meu. A atravessar a barreira física da pele e a encher-me todo de um dia de Sol.

A janela aberta a trazer até ao silêncio estático do quarto uma vida de sons matinais. Uma sinfonia sem partitura e interminável. Os sons a virem até nós aos saltos como crianças traquinas. Os sons a virem até nós. A mim do lado de cá do sono. Rejeitados por ti na inocência profunda do mesmo.

O passar da manhã a ser um rio suave e forte. Um rio suave e forte a desaguar no teu primeiro estremecimento. No fôlego de brisa que te faz levantar as pálpebras e ver o mundo como pela primeira vez.

E depois, o leve aflorar no teu rosto de um sorriso. De um sorriso sem Sol nem Lua. De um sorriso feito de amor e sem nada a temer.
A montanha parada e sagrada que é o teu corpo a agitar-se. E a virar-se para mim com a lentidão lânguida de um gato a espreguiçar-se ao Sol.

Os teus olhos.

Os teus olhos a serem um novo dia dentro do mundo. Um outro mundo dentro do mundo. Os teus olhos cor de amanhã. A fervilharem de dias por acontecer. De sonhos por concretizar. De manhãs por acordar.
Os teus olhos sem forma. Ou com a forma de duas gotas de orvalho em pleno ar. Antes do calor da terra as acolher nos braços abertos.
Os teus olhos como fogueiras em noites de São João. Como lareiras nas vésperas de Natal. Acolhedores e aconchegantes. Intemporais e concretos.

Os teus olhos a olharem-me na imensidão do tempo. Na solidão de nós. Sem receios e sem promessas.

Uma carícia no rosto. Na tua pele. A estimular os receptores sensoriais escondidos aos milhares debaixo dela. Estes a levarem mensagens aos neurónios sensoriais, à espinal medula, ao córtex. Milhares de pequeninas mensagens que eu supunha dizerem. Que eu sabia dizerem. Que te amava e que o mundo não seria mundo se eu não pudesse passar a mão, numa carícia, pelo teu rosto.

Depois vinha o magnetismo irresistível dos lábios. Os dois pólos contrários, que éramos nós. Que somos nós. A atrairem-se com forças por inventar. Por descobrir.

A força gravitacional é fraca. Nem sequer é força. Nem é nada. Comparada com a atracção magnética que conduz os meus lábios e os teus lábios ao encontro a meio caminho.

Numa suspensão do tempo. Num tempo de espuma e relógios parados. O momento sublime. Genial. Sinfónico. Em que os meus lábios repousam nos teus. Em que os teus se vêm aconchegar e encontrar nos meus.
Acontece tudo num espaço que é sempre novo. À nossa volta todas as paisagens dos dias que foram nossos. Dos dias que haviam de. Que hão-de. Ser nossos.



[02/03/2006... Quando o escrevi deixei-o incompleto. Mas passou tanto tempo que vai ficar assim.]

O prazer da escrita

De noite. Sempre. A vontade esporádica. Mas poderosa. De escrever. Numa altura precisa. Quando o sono torna irreversível o caminho até ao leito mas a mente anseia ainda o labor purgante do pensamento.
É um sentimento único. Como o expandir físico de um cubículo apertado. Como passar a respirar ao ar lire depois de estar cativo numa caixa sem respiradouro. Como estas coisas mas diferente ainda é a sensação que me assola. O prazer de sentir que algo pode fluir de mim e materializar-se nas linhas rítmicas da vida. Feitas caderno por marcar.
O prazer que sinto em saber que nestas alturas posso escrever é muito superior (Sacrilégio!) ao próprio prazer da escrita.




[Há uns meses. Mas podia ser um dia qualquer.]

Sexta-feira, Dezembro 29, 2006

Às tantas

Às tantas não quero saber. Sou uma pessoa que não quer saber. Foi nisto que me tornei. Um algo que não quer saber nada do que se passa no vazio por fora de si.


Às tantas acordei um dia e no lugar do coração tinha uma pedra sem movimento. Foi aqui. A este lugar sem som e frio. Que tudo veio dar. Que tudo. Veio dar.


Às tantas sou mais um. Mais um numa fogueira gigantesca. Mais um que tem nãos em vez de olhos. E paus em vez de mãos.

Quinta-feira, Dezembro 14, 2006

Orvalho

Agora. No fim da noite. Quando tudo parece ter passado. Sem se ter no entanto a certeza de se ter passado por alguma coisa. Ou de se estar apenas a iniciar uma outra. Agora quando o silêncio começa a corroer a euforia falsa. A euforia falsa que talvez só exista para proteger deste silêncio. Do silêncio de nos sentarmos sozinhos a meio da noite, de frente para nós, num confronto interno duro e mutilante…

Agora que desce sobre nós, como o cacimbo sobre a vegetação nas madrugadas geladas de Inverno, o peso das decisões tomadas. Tudo parece um pouco mais difícil… E somos folhas dobradas pelo peso de duas gotas – espessas, densas, lentas - de orvalho…

Sábado, Dezembro 09, 2006

Sereia

Neste momento tudo me prende aqui. Mas no entanto vou. Tenho que ir. Apesar das pessoas que vão ficar. Das saudades grandes que eu e elas vamos ter de nós. Apesar das lágrimas que vão salgar a cara de vez em quando. E das memórias. Que umas vezes hão-de aquecer o coração e outras nos hão-de tornar lívidos de frio e solidão. Tenho que ir.

Alguma coisa dentro de mim me diz que tem de ser assim. Que este é o caminho. Que tudo irá correr bem. E mesmo que não corra pelo menos ficará a certeza insofismável - por oposição à incerteza mortificante (de não ter tentado) - de ter tentado. Talvez seja o mesmo ímpeto que há mais de 500 anos levou o meu povo a partir. Contra mães que choravam. Contra filhos que em vão rezavam. Contra noivas que ficavam por casar. Para que o mar fosse nosso.

Ou talvez seja apenas o apelo irresistível da distância. O canto longínquo de uma sereia interior. Contra o qual não me posso amarrar a um mastro ou tapar os ouvidos com cera - como Ulisses. Contra o qual poderia talvez cantar mais alto. Cantar mais docemente como Orfeu para salvar os Argonautas. Tornando a sereia em rocha precipitada no mar... Mas não sei se aguentaria o silêncio.

Cada um de nós traz uma canção da distância debaixo da pele. Uma melodia exótica que nos chama e nos tenta resgatar ao conforto estéril do quotidiano. Um destino qualquer para onde partir e - quem sabe? - por preencher.

É por isso que. Ainda que neste momento tudo me prenda aqui. Pessoas. Saudades. Lágrimas por vir. Memórias de sorrir e chorar. Eu tenho que me soltar. E ir. De encontro ao canto longínquo da sereia.

Terça-feira, Novembro 07, 2006

Vou ser assim!

No outro dia, enquanto ia a caminho do Hospital uma vez mais. Uma manhã mais de um dia mais. De uma semana mais. De um mês mais. De um ano mais. No outro dia, enquanto ia a caminho do Hospital uma vez mais. Parei.

Parei no meio da multidão que passava apressada. Ora para sair ora para entrar pelos portões de ferro sempre abertos que guardam a entrada. Parei e pensei. Como acordando de um sonho. O que estou a fazer?

Só isto. O que estou a fazer?

Senti-me um carro eléctrico sobre carris. Que percorre todos os dias as mesmas ruas gastas. Que não pode virar à esquerda ou à direita (Porque vai em frente. Sempre em frente. Sem poder escolher um beco. Uma viela. Um recanto. Para se esconder do metal frio dos carris que levam a lado nenhum porque levam sempre aos mesmos lados) . Cujo caminho está traçado e para quem não há esperanças.

Senti-me um carro eléctrico sobre carris. Preso. Talvez mais do que numa prisão. Por estar preso pensando estar em liberdade. Por estar preso nas ruas da cidade. Entre as cores. As formas. Os cheiros. Os sons. As paredes. Das pessoas todas em meu redor.

Desde então até agora. Desde esse momento até agora. Quando passaram alguns dias sem nome ou número. Não me consigo concentrar. Os dias são diferentes. As horas custam a passar e o entusiasmo aparece esporadicamente na crosta de mim.

Uma só ideia domina o meu espírito. Não quero mais. Não quero mais estes carris que me guiam o destino. Vou ser eu. Vou ser feliz. Como alguém disse um dia, a minha vida não é nada disto. Não sei bem como é. Mas sei que não é nada disto.




N'Os Maias. Um dos livros que me marcou profundamente. Há uma frase linda. Linda. Linda. Que diz, acerca da vida planeada e da realidade que a substitui, vou ser assim, porque a beleza está em ser assim. E nunca se é assim. É-se invariavelmente "assado".

Naquele momento revelador senti-me assim... assado. Mas. Foi desde aí. Que disse. Que começei a dizer. Ao fim de 24 anos...

Vou ser assim, porque a beleza está em ser assim!

Segunda-feira, Setembro 11, 2006

Vértice

De noite.
Na solidão da falésia.
O vento corta-me às fatias.
Sou lusco-fusco
(A bailarina de corda.
Sem mão esquerda e de lábios azuis)
Semente nocturna dos dias.
O mar contra a pedra.
O mar morto contra pedra viva.
Luto salgado. Sagrado.
Dos quartos vazios à luz trémula das velas
E das mãos que tombam de outras.
O silvo seco e louco de tudo
A embalsamar-me os olhos
Num instante de terror.
Até a baioneta.
(Frio de metal cinzelado.
Azul. Azul. Azul.
A invadir dos lábios o corpo todo)

Zim!

E o sangue!
Vivo. Vermelho. Voraz. Veloz.
Se verter no véu da alvorada.


[Ontem. Adoro]

Sexta-feira, Agosto 04, 2006

Palavras...

Às vezes os dias caem, como se lhes chegasse o Outono.Como se nas folhas caídas das árvores se soltassem pedaços da vida de cada um de nós. Às vezes custa. Levantar a cabeça e sorrir, como se tudo estivesse bem e o mundo fosse um gigantesco parque de diversões, ou um eterno Verão inextinguível da nossa infância. Às vezes custa abrir os olhos na escuridão das tardes, distinguir algo por entre os vultos vagueantes nas nossas ruas, nas palmas das nossas mãos.
Disseram-nos sempre que ninguém se esquece de andar de bicicleta, mas ninguém nos disse que nos esquecemos de tanta coisa, que as nossas memórias se rasgam mais facilmente do que uma folha reduzida a cinzas. Ninguém nos disse que os pôres-do-sol causam habituação e que na poeira envidraçada dos dias que nos arrastam perdem as cores, a magia, o encanto.
Ninguém nos disse que se perdem os amigos por entre os dedos como areia na praia, nem que os nossos castelos de encantar não duram sempre, e se desfazem, sempre, por entre a maré que sobe e o vento que se levanta.
Ninguém nos disse que às vezes os dias caem, como se lhes chegasse o Outono...




Chaves, 07-08-2004 (4:51)

Quinta-feira, Julho 27, 2006

Impressões

O fim do dia a cair sobre a terra como um véu das mil e uma noites. Com uma promessa de ilhas paradisíacas suspensas num pôr-do-Sol perfeito.
O fim do dia a esbater suavemente cores, cheiros, sons e a acender levemente, no seu lugar, uma sinfonia nocturna.
O ritmo melancólico. Doce. Que se vai lentificando sem se tornar lento. O ritmo dos lavradores a retornarem do campo com as sacholas no ombro e a boina levantada. O cabelo agora descoberto. Grisalho como a vida. A mão que desliza sobre ele como arado sobre terra por semear. Mais um passo amortecido pela estrada de terra batida e na face uma gota de suor vai descansar de encontro ao sobrolho. A boina a regressar ao topo da cabeça. A camisa desabotoada. Dois botões e o peito queimado por tantos sóis. A mão a buscar o bolso. A buscar dentro do bolso. O lenço azul com a inicial cosida. Companheiro quando o calor aperta e faz chorar a pele em demasia.

Mais um passo. O virar da esquina. E no canto do olhar acende-se um brilho moreno e vivo.

Lá ao fundo. De pé no topo das escadas de pedra, uma frágil figura espera. As mãos enrugadas repousando sobre o avental azul. O cabelo apanhado num carrapito no cimo da cabeça. Nos pés socas de madeira sujas de terra. E no rosto a alegria serena. E sábia. Do amor.


[26/07/2006]

Segunda-feira, Julho 24, 2006

Papão

A cama hoje não vai ser repouso. Nem o sono vai chegar. Hoje vem uma noite branca. Como outras no passado nevado. O amanhã é um bicho muito mau e muito feio que vem para me fazer mal. E os braços da noite, hoje, não me podem proteger nem esconder das borboletas más na barriga.


[2006]

A verdade (e um limpa-neves)

A verdade é só esta. Nua e crua como só as verdades podem ser. Quero atirar-te para trás das costas. Quero esquecer-te. Perder-te (Não ir-te perdendo aos poucos. Perder-te toda de uma vez só com a intensidade com que sempre cri em ti).

A verdade é só esta. Tivemos muitos dias. Muitos meses. Muitos anos. Cheios de segundos e oportunidades que não o foram. Agora chega. Agora a nossa viagem chegou ao fim. Os nossos destinos separam-se aqui. Eu vou por aqui. Tu vais por onde quiseres. Mas não comigo. Não te trarei mais dentro de mim nas horas vazias, quando a noite cresce dentro do peito até sugar toda a sanidade do ar. Agora chega. Estarei só quando estiver só (Não estarei acompanhado como quando estava só com a tua presença metafísica). Estarei só e feliz. Sem o peso todo do passado que nem passado foi, mas um devaneio de criança. Sim, um devaneio de criança.

A verdade é só esta. Espero um dia perder também as recordações que são caminhos de terra batida que levam a tua casa. As poucas recordações que são veredas à beira-rio num pôr-do-Sol eterno onde corro o risco de te reencontrar sem querer. Espero apagar todas as minhas pegadas da neve. Para nunca mais as poder seguir no sentido contrário. No sentido das tuas. No sentido de ti.

A verdade é só esta.


[13/14-06-2006]

Anjos

Às vezes. Na vida. Há pessoas que nos tocam como anjos. Com os seus dedos de veludo e os seus corações cheios de paz. Pessoas que nos enlaçam com os fios invisíveis da alma e nos prendem com nós que nenhuma espada pode desfazer.

Após o que. Muitas vezes. Como anjos regressando aos céus. Se afastam de nós. Desaparecem na imensidão (de oceano) da saudade.


[23-07-2006]

Quinta-feira, Julho 20, 2006

K.

O Hospital frio e sem cor. Onde o barulho das luzes acesas queima o peito sem oxigénio. Onde não há horas do dia e horas da noite, mas horas longas, grávidas, cheias de doença. Os vidros irreais a reflectirem no espaço incorpóreo da luz acesa na janela em frente, o meu reflexo. O reflexo que deve ser meu porque naqueles olhos adivinho um brilho do olhar que nasceu comigo. Mas nada mais. Um outro rosto, outras rugas vincadas numa expressão que não conheço. Uma caricatura feia. Uma máscara de Carnaval feia. Uma pintura abstracta feia. Do que um dia julguei ser.

Por cima, os aviões. Os aviões sempre. Numa asfixia de turbinas a desacelerar. À qual se segue um silêncio mentiroso e um trovão a aproximar-se, de outro avião a descolar.

Os corredores longos e desertos. E repetitivos. Sem saídas por onde saltar para a vida. Os corredores longos. Encadeados. Iguais entre si como dois canos de caçadeira.
Os corredores longos. A desenharem pontos de fuga virtuais na distância, que são prisões de betão e mosaico adiadas.
Os corredores longos. Tão longos que se ramificam a qualquer instante, que progridem implacavel e incessantemente como os ponteiros de um relógio que nunca pára. Que se ramificam até penetrarem em nós. Até nos corromperem por dentro como roupas com traça. Os corredores que são reflexos infinitos na casa dos espelhos da feira popular. Que angustiam e nos encostam às paredes até o chão nos escorregar por baixo do corpo.

Os corredores Kafkianos. Os corredores sem portas. Ou com portas muito ao longe, que nenhuma corrida pode alcançar. Os corredores que não terminam. Que não terminariam ainda que passássemos a noite toda a andar. A noite? Queria ter dito a vida.



E não haver nas mãos uma nascente no topo de uma montanha. E um fio de água a correr delas e a formar um rio grande e forte e livre. Que rebentasse estas paredes e estes vidros estéreis de vida e nos devolvesse.
Nos devolvesse.

Me devolvesse.

A paz de uma noite de luar no cimo da serra.



[24-03-2006 22:55... (Sta.Maria) ]

Quarta-feira, Junho 28, 2006

Adeus

Escoa-se o dia no fundo do mar.
Ao longe um barco só,
Num desleixe de pintor apressado.
Uma gaivota desenha sinfonias,
Recortadas nas nuances do céu.
Além, nuvens frágeis apetecem,
Como algodão doce na feira.
As ondas repetem à areia
Histórias de adeus...
E ela chora espuma.

A meu lado, pegadas curtas
Que se perdem no areal dourado.
E se levantaram junto a mim...

[2004]

Segunda-feira, Junho 05, 2006

Ampulheta

Só hoje percebi que vais ser passado. Foi agora. Desde então só peguei na caneta e no bloco. Ambos novinhos a estrear. Percebes a ironia? Acabei de perceber que tu. Como quase tudo o resto. Vais acabar por ser passado. E digo-o de uma maneira cheia de futuro.

Devia tê-lo percebido há muito tempo atrás. Só os meus olhos, abertos de mais, me impediram de perceber os pormenores. E também os pormaiores. Porque não?

De certa forma chegaste até este presente. Até este presente revelador e mutacional. Embrulhada em roupagens de passado. Foi quase como se eu e tu fôssemos soldados. Como se tu tivesses caído moribunda há quilómetros atrás. Como se eu tivesse insistido. Como se não quisesse perceber o vazio a crescer no espaço branco do teu olhar. Na tua pupila. Como se não quisesse ver o sangue a verter-se do teu abdómen fendido (Como se não quisesse ver-te verter. Ver-te vertida). Como se, por tudo isso, te tivesse erguido com carinho no ar antes de te colocar o peso (Morto. O peso morto) sobre mim. Sobre os meus ombros cegos e surdos. Como se, depois disto ter feito, te tivesse carregado quilómetros e quilómetros (que são metros e metros somados a metros e metros na lonjura dos dias). Por desertos e montanhas. Por vales e mares. Convencido de que estavas. De que eras presente e serias futuro. Até hoje. Neste sofá perdido na multidão domingueira de um centro comercial.

Só hoje percebi que vais ser passado. E perder-te vai ser natural e desinteressante. Como um braço a pender dos ombros. Dois braços a escorregarem. E logo depois o silêncio do corpo todo na terra batida. Já sem dentros para verter.




[04-06-06. 20 horas. CascaisShopping. Tive caneta, papel e força. Estou muito feliz. Mesmo muito feliz com este texto. E isso é raríssimo.]

Domingo, Junho 04, 2006

Caleidoscópios

Houve tempos em que corria em mim um sangue diferente do de hoje. Tempos em que os meus olhos eram caleidoscópios e me mostravam o mundo como ele deve ser visto.

Nessas alturas havia dentro de mim o grito madrugador da poesia. Uma sensação em nada diferente de um delírio de febre. Como uma onda. Como uma inquietação imprevista e avassaladora. Rebentava em mim o desejo louco e inestancável (como um rio a derrubar uma barragem de betão). O desejo louco e inestancável de escrever. De escrever pedaços de corpo. De mergulhar de cabeça. E corpo todo. Nas águas purificantes da alma. E dela resgatar. Como se resgata alguém que está prestes a afogar-se. E dela resgatar as palavras ditadas pela mão cega da musa.

Tudo isso foi num tempo indeterminado. Que pode ter sido há anos ou apenas ontem. A partir de certa altura os dias são muito semelhantes a areias movediças. Que nos prendem pelas pernas e nos impedem de seguir viagem. De abrir horizontes. De ver o mundo.

O mundo que. Sem caleidoscópios. É triste como uma casa vazia.

Sábado, Junho 03, 2006

Lua

Lá fora uma vez mais a lua cheia. Pendurada no azul quase diurno. De fim de tarde. Do céu.

Hoje sem nuvens. Quando a noite está assim necessito de uma clareira. De um lago talvez. De um jardim de uma casa de campo inglesa. Não sei bem. É-me difícil imaginar cenários para esta imagem. A placidez. Quase insolente. Da Lua no céu. A querer lembrar-me algo. Dizer-me algo que não percebo.

O cenário é irreal. Talvez só me lembre das lendas Arturianas ou do deserto africano. Um dia quero fazer um safari. Um dia quero ir ao Tibete. Um dia quero ir a uma aldeia remota do Japão profundo. Um dia quero molhar-me no Ganges. Um dia quero andar no Expresso do Oriente. Um dia quero. Tanta coisa que me magoa escrever.

Um dia vou ter uma caravana e correr a Europa toda. Toda. E vou ver os luares todos. Em cada lugar vou escrever um poema. Tirar uma fotografia. Beijar-te. Vou reter tanta coisa quanta puder. Fazer tudo. Visitar muita coisa. Percorrer muitos trilhos inexplorados. Se os houver e eu os encontrar.

O que move. O que motiva. O que impulsiona o ser humano é a capacidade louca de sonhar. De desejar. De imaginar. Se realizasse todos os sonhos. Se isso fosse possível. Morria logo a seguir. De tédio.


[Verão de 2005]

Sexta-feira, Junho 02, 2006

Puzzle de criança - 04/12/2000

Oh... repara, como se os teus braços fossem asas coladas ao meu corpo terreno...no abraço interminável e intemporal que nos damos apaixonados - só um, sempre o mesmo, contínuo e imutável -, cientes da nossa juventude e do nosso amor...
Percebes? Que toda a vida sonhei com este abraço e que é a minha grande aspiração, o meu sonho para o futuro? Da mesma forma que tu és e serás sempre a musa dos meus dias mais inspirados, o reflexo doirado nas águas tépidas do lago ao crepúsculo e a aragem fresca de uma manhã em liberdade...

Como os pássaros que voam nos campos, livres e cheios de amor por dar e por receber, assim passeamos nós nesta cidade, cheios de um egoísmo bom que nos faz ter a plena consciência de que nada mais interessa no mundo para lá do olhar que trocamos - e que é um beijo doce, longo e ardente - e das paisagens que construimos lado a lado. Sim... sabes tão bem quanto eu, que o mundo é algo mais, não é unívoco, tem várias faces, sabes tão bem quanto eu... e isso aprendemo-lo juntos no conforto dos dias... que cada um pode criar o seu próprio mundo... o mundo é um quadro, e há mil e uma maneiras de o colorir e de lhe dar forma, mesmo quando a realidade é a mesma para todos... e afnal, isto é arte. Como um poeta que escreve o que lhe vai na alma, como um escultor que dá vida à sua obra de acordo com o palpitar que lhe vai dentro do peito, assim é também necessário ser um artista para dar ao mundo a coloração certa e torná-lo nosso... isso aprendemo-lo juntos...

Os teus lábios nos meus, a aconchegarem a criança que chora dentro de mim quando não estás, como carícias boas de mãe, a prometerem lagos de amor e aves de sonho em cada contacto, cada afago, cada despertar... sei que te conheço desde sempre, que sempre te conheci mesmo quando ainda não era eu e as minhas moléculas eram ainda um nada sereno e silencioso... sempre te conheci... como se te encontrasse dia após dia, redescubro-te, no entanto, em cada olhar, em cada sorriso, em cada emoção... surpreendes-me a cada instante contemplando das montanhas da minha imaginação o nosso amor, como se por vezes o visse não só pelos meus olhos, mas por olhos estranhos... e sorrisse enternecido... sabes? tu e eu não existimos verdadeiramente estando separados, como duas partes de um puzzle antigo lançadas ao acaso numa caixa de infinitas peças montadas pela mão de uma criança sonhadora... talvez que fosse evidente a nossa complementaridade, mas não deixa de ser maravilhoso que a criança nos tenha visto e sorrido perante o nosso olhar cúmplice, juntando-nos neste abraço interminável e caloroso...



"Puzzle de criança" - 04/12/2000 [Bem do fundo da gaveta...]

Segunda-feira, Maio 29, 2006

...

Que frio...

Domingo, Maio 28, 2006

Bomba relógio

Tic...tac...tic...tac...tic...tac...tic...tac...

O ruído de prisão do relógio em torno de mim. Dentro de mim a claustrofobia cega das horas. Os momentos que correm todos na direcção de um destino igual aos demais. Na direcção de um futuro previsível, estereotipado. Socialmente aceite. A cada dia que passa a sensação clara de que está tudo a encaixar-se. De que está tudo a convergir. A normalizar. A sensação de um eléctrico a percorrer Lisboa. Aparentemente livre e belo e sem amarras. Mas preso aos carris subrepticiamente. Inapelavelmente.

Tic...tac...tic...tac...tic...tac... o tempo a escassear entre os dedos. O tempo a escassear para fugir deste trilho desbravado e sem perigos. O tempo a dizer-me ao ouvido que está tudo bem. Que está tudo bem e não poderia estar melhor. Que nada esteve tão bem como agora. O tempo a dar-me palmadinhas nas costas e a sorrir-me com ar complacente. E cúmplice. Mas dentro. DENTRO. Uma vozinha bem ao fundo a tentar gritar. A tentar gritar algo que não entendo sequer como um sussurro. Mas sim como um abraço terno.

Tic...tac...tic...tac... uma raiva surda que cresce por dentro da pele e ameaça rasgá-la (rasgar-me) a qualquer instante. Uma vontade de fugir. De fugir para muito longe. De fugir muito, muito, muito. De fugir de cabeça baixa e punhos cerrados. De fugir a direito. A direito através de muros e paredes. A direito através de tudo o que deva ser atravessado. Sem desvios e sem nunca parar. Sem nunca parar. Sem nunca parar. Até cessar o ruído infernal do toque a reunir.

Tic...tac...

Tic...

Outras vezes a sensação de que. Afinal. Está tudo bem. De que são tudo ilusões e quimeras. De que basta dormir que isto passa. Pela manhã o mundo parecerá belo, asséptico, seguro, confortável, perfeito. E todos me cumprimentarão na rua com palmadinhas nas costas e sorrisos...

AAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!

Um dia serei assim se me esquecer de ser eu. Serei mais um na massa informe do dia-a-dia. Sorrirei também com olhar complacente. E darei palmadinhas nas costas como quem sabe que está no local certo. No local onde tudo está bem e onde nada poderia estar melhor. Por enquanto não. Ainda tenho forças para cerrar os punhos, baixar a cabeça e fugir muito, muito, muito...





[ Por todo o texto uma música a ressoar na cabeça - Fitter Happier dos Radiohead... E um verso, "A pig. In a cage. On antibiotics." ]

Domingo, Maio 14, 2006

Assombração

A manhã ergue-se perante os meus olhos como uma assombração. Na cara, o ar gelado, que já foi retemperador. Mas que hoje. É uma sucessão rítmica de chapadas no rosto.
Tudo o que dista 1 metro de mim e dos meus passos é breu. Um véu pesado e opaco cobre o mundo, como se por vergonha, como se de vergonha.
Caminho da luz para as trevas em busca da luz. Túnel enganador e sem retorno, a vida. Pela hora que faz imagino que a vida deva ter retomado o seu curso em algum lugar distante a mim.
Sinto apenas o peso do corpo sobre os pés, sobre os joelhos, sobre as ancas, sobre as costas. Sinto o peso morto da cabeça tombada no peito. E sinto na planta dos pés o arrastar de mais um passo. De mais um momento.

Todas as manhãs acordo e ando em frente. Ando em frente até o cansaço fazer cair a noite sobre mim. Uma noite que é um sonho comprido onde acordo e ando em frente. Ando em frente até a manhã se erguer perante os meus olhos como uma assombração.